Más ojos.

Teus olhos, contas escuras,
São duas ave-marias
No rosário d’amarguras
Que rezo todos os días.

Quando a dor me amargurar.
Quando sentir penas duras,
Só me podem consolar
Teus olhos, contas escuras.

D’eles só brotam amores,
Não há sombra d’ironias,
Teus olhos sedutores
São duas ave-marias.

Se acaso a vida os vem turvar,
Fazem-me sofrer torturas
E as contas todas rezar
Do rosário d’amarguras.

Ou se os alaga a aflição
Peço pra ti alegrías
Numa fervente oração
Que rezo todos os días!

Fernando Pessoa.

Insónia.

Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos…
Tantos versos…
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê… Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto… Vem…
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta…
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.

Vem, madrugada, chega! Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada…
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exatamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exatamente. Mas não durmo.

Álvaro de Campos.

Cansaço

Não, nâo é cansaço…
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feirado passado no abismo…

Não, cansaço não é…
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porqué?
É uma sensaçao abstracta
Da vida concreta-
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer conpletamente,
Ou por sofrer como…
Sim, ou por sofrer como…
Isso mesmo, como…

Como qué?…
Se soubesse, não haveria em min este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!…

Fernando Pessoa.

Paganismo.

Sin discutir ahora cuáles son los fundamentos metafísicos, ya de la religión, ya de una religión en especial, basta con que, comprobada como está por los sociólogos la necesidad humana del fenómeno religioso para disciplina y orientación de las sociedades, consignemos, a modo de corolario, que más disciplinará y orientará a las sociedades aquella religión que más cerca esté de la Naturaleza. Esa religión, por estar más cerca de la Naturaleza, más directamente puede actuar sobre los hombres, más les puede influir en el sentido de que no se desvíen de las leyes naturales que fundamentalmente rigen a la vida humana, porque a toda vida más pueden estimular y dirigir las actividades del espíritu humano, porque menos traba a las otras, dejando por ello más libres a éstas.

Sentado esto, puede demostrarse con facilidad que la religión llamada pagana es la más natural de todas.

Se apoya esta demostración fácil en tres razonamientos sencillos.

La religión pagana es politeísta. Ahora bien, la naturaleza es plural. La naturaleza, naturalmente, no se nos aparece como un conjunto, sino como «muchas cosas». No podemos afirmar positivamente, sin el auxilio de un raciocinio mediador, sin la intervención de la inteligencia en la experiencia directa, que exista, de verdad, un conjunto llamado Universo, que haya una unidad, una cosa que sea una, designable por naturaleza. La realidad, para nosotros, se nos aparece directamente plural. El hecho de que refiramos todas nuestras sensaciones a nuestra conciencia individual es el que impone una unificación falsa (experimentalmente falsa) a la pluralidad con que nos manifiestan las cosas. Ahora bien, la religión se nos manifiesta, se nos presenta como realidad exterior. Debe por lo tanto responder a lo distintivo fundamental de la realidad exterior. Este distintivo es la pluralidad de las cosas. La pluralidad de dioses, en consecuencia, es el primer distintivo emblemático de una religión que sea natural.

La religión pagana es humana. Los actos de los dioses paganos son actos de los hombres magnificados; son del mismo género, pero a escala mayor, a escala divina. Los dioses no se salen de la humanidad rechazándola, sino excediéndola, como los semidioses. La naturaleza divina, para el pagano, no es antihumana al mismo tiempo que sobrehumana: es simplemente sobrehumana. Así, sobre estar de acuerdo con la naturaleza en cuanto puro mundo exterior, la religión pagana está de acuerdo con la naturaleza en cuanto humanidad.

Finalmente, la religión pagana es política. Es decir, es parte de la vida de la ciudad o del estado, no tiene por fin un universalismo. No trata de imponerse a otros pueblos, sino de recibir de ellos. Está, así, de acuerdo con el principio esencial de la civilización que es la síntesis, en una nación, de todas las posibles influencias de todas las demás naciones-criterio del que sólo se apartan los criterios estrechamente nacionalistas, que son el provincianismo de la cultura, y los criterios imperialistas, que pertenecen a la decadencia-. Nunca se ha visto a una nación fuerte ser conservadora, ni a una nación sana ser imperialista. Quiere imponerse quien no puede ya transformase. Quiere dar quien no puede recibir. Pero quien no puede transformarse se ha paralizado en verdad; y quien no puede recibir se ha paralizado también.

En consecuencia, la religión pagana se halla en armonía con los tres puntos naturales en que incide la humanidad: con la propia esencia experimental de la naturaleza entera, con la propia esencia de la naturaleza humana y con la propia esencia de la naturaleza humana en marcha (en marcha social), es decir, de la naturaleza humana civilizada, es decir, de la civilización.

Fernando Pessoa, El regreso de los dioses.

De la tristeza.

DOLORA.

Dantes quâo ledo afectava
Uma atroz melancolia!
Poeta triste ser queria
E por nâo chorar chorava.

Despois, tive que encontrar
A vida rígida e má
Triste entâo chorava já
Porque tinha que chorar.

Num desolado alvoroço
Mais que triste nâo me ignoro.
Hoje em dia apenos choro
Porque já chorar nâo posso.

Obra poética de Fernando Pessoa, Poesia I (1902-1929)

Ojalá podamos desterrar la tristeza un ratito cada día.

Cumpleaños.

ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradiçcao de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religiâo qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de nâo perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entra a familia.
E de nâo ter as esperanças que os outros tinham por min.
Quando vim a ter esperanças, ja nâo sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a min mesmo,
O que fui de coraçao e parentesco,
O que fui de serôes de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui-ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distancia!…
(Nem a acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humildade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje(e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobreviviente a mim-mesmo como un fósforo frío…

No tempo em que festejavam o día dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para min…
Comer o passado como pâo de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aquí…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
O aparador com miutas coisas- doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado-,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Pára, meu coraçao!
Nâo penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje ja nâo faço anos.
duro.
Sonam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de nâo ter trazido o passado roubado na algibeira!…

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

Poesía de Álvaro de Campos.